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No Ginga Moda RN, Daniela Falcão mostra como identidade regional pode conquistar mercados 

Publicado em 24/07/2026
Daniela Falcão é jornalista, sócia fundadora da Nordestesse e ex-diretora da Vogue

Como conquistar o mercado global a partir de um olhar regional? Essa e outras perguntas serão respondidas na próxima segunda-feira (27), em Natal, pela jornalista, empreendedora e ex-diretora da Vogue Brasil, Daniela Falcão, na palestra de abertura do GINGA Moda RN. 

Daniela tem 55 anos, nasceu em Salvador e mora na capital baiana, ainda que – como diz – “viva pelo mundo”. Em 2021, ela fundou a Nordestesse, plataforma que promove a economia criativa e valoriza a cultura, a moda e o design do Nordeste. 

Nesta entrevista, a jornalista fala sobre brasilidade e explica como a valorização da identidade dos territórios, das manualidades e da produção artesanal pode abrir espaço para marcas brasileiras, especialmente nordestinas.

Ela também comenta os desafios para ampliar a presença da moda produzida no Nordeste nos cenários nacional e internacional e destaca potenciais e oportunidades que enxerga para o Rio Grande do Norte. 

Na visão de Daniela, marcas que contam a história do seu território, incorporam manualidades e trazem elementos originais têm mais chances de sucesso. 

Esses e outros temas, antecipados na entrevista, serão detalhados na palestra de abertura do evento, marcada para as 14h da próxima segunda-feira (27). 

O GINGA Moda RN será realizado no Hotel Praiamar Arena, reunindo marcas de diferentes segmentos da moda potiguar, espaço dedicado ao artesanato, desfiles, rodadas de negócios, palestras e talk shows, com oportunidades de troca de conhecimentos e capacitação. A entrada é gratuita, com inscrições disponíveis no site (https://gingamoda.com.br). 

A expectativa é atrair aproximadamente 2 mil participantes, entre profissionais do segmento, empreendedores/as, especialistas, estudantes, consumidores/as e demais interessados/as.  Empresas compradoras de pelo menos 18 estados brasileiros e R$ 1,8 milhão em vendas são esperados ao longo da programação, que começa no dia 27 e vai até o dia 28. 

O evento é uma realização do SENAI Moda, do SEBRAE-RN e da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico (Sedec), com apoio da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte (FIERN), da Associação de Moda do Rio Grande do Norte (AMO-RN), da Associação Seridoense de Confecções (Asconf), do Sindicato das Indústrias de Fiação e Tecelagem em Geral do Rio Grande do Norte (SIFT), do Sindicato das Indústrias de Vestuário do Rio Grande do Norte (SINDIVEST) e do Sindicato das Indústrias de Bonés e Chapéus do Estado do Rio Grande do Norte (SINDIBONÉS).

Riachuelo, Instituto Riachuelo, Vicunha, Bonor e Grupo NS são patrocinadores. 

A seguir, confira os principais trechos da entrevista.

Sua palestra no Ginga Moda RN vai mostrar como conquistar o mercado global a partir de um olhar regional, e tratar, também, de ‘brasilidade’. Essa brasilidade a que você se refere seria a ideia de identidade brasileira ou esse termo tem um significado mais amplo na sua abordagem?

Quando a gente fala de brasilidade, num sentido mais amplo, a gente defende que as marcas que mais conseguem trazer uma história, uma narrativa que fale do seu território, no caso da moda e do design, por exemplo, que incorporam materiais e referências, manualidades do seu território, mais chance têm de chamar a atenção, de fazer sucesso nacionalmente e de conseguir o sonho de conquistar o mercado internacional. Isso a gente vê muito claro na moda com marcas como Catarina Mina, que está no São Paulo Fashion Week e exporta para mais de 15 países, a Foz, de Alagoas, que está no São Paulo Fashion Week, e a Marina Bitu, do Ceará, também. São, todas, marcas que trazem manualidades que falam dos seus estados, mas de uma maneira nada caricata, trazendo realmente um olhar regional, mas refletindo um desejo global. Então, quando eu falo de brasilidade, eu tô falando de algo que dialoga com o território. E isso vale para todas as esferas. O Brasil é um país muito amplo, assim como o Nordeste, mas a gente tem muita coisa em comum. Então brasilidade são os nossos traços em comum, sempre dialogando com os vários territórios que temos. 

Como os estados do Nordeste se encaixam nesse cenário, considerando toda a diversidade que também existe na região? 

Nós somos muitos Nordestes, mas temos muitas coisas em comum. Nós temos mais coisas em comum do que coisas diferentes. Então, por exemplo, para ficar na seara da moda, as rendas, os bordados, o crochê são manualidades que estão bem distribuídas pelo Nordeste e, sobretudo, no Nordeste, muito mais que no resto do país. Agora, é lógico que Alagoas tem o bordado filé, Pernambuco tem a renascença, a Bahia e o Ceará tem a renda de bilro, o crochê está meio espalhado pela região inteira, Sergipe tem a renda irlandesa, mas são rendas e bordados. Então, o que o Nordeste tem de comum que a gente pode explorar e trabalhar com uma identidade comum? Artesania têxtil. É uma coisa que só a gente tem e que faz desse jeito. As manualidades como um todo são uma coisa que unem muito o Nordeste. 

Onde o Rio Grande do Norte se insere nesse contexto? Quais características ou potenciais do estado mais chamam sua atenção?

A gente tem renda de bilro em Alcaçuz, tem o bordado manual em Timbaúba dos Batistas e em Caicó, tem crocheteiras pelo estado inteiro. O Rio Grande do Norte tem essas manualidades têxteis. Não é uma prerrogativa dele, outros estados também têm, mas a gente tem muito forte, vocês têm muito forte, renda de bilro, bordado e crochê. Uma outra coisa que eu acho que privilegia muito o Rio Grande do Norte na seara da moda é o fato da Riachuelo e da Guararapes. O Rio Grande do Norte concentra uma empresa que emprega mais de 9 mil pessoas, 45% de todas as peças vendidas pela Riachuelo são fabricadas no Rio Grande do Norte, e não é só o treinamento e a expertise que existe na Guararapes, mas nas oficinas que eles trabalham espalhadas pelo estado inteiro. Então, você tem cidades, sobretudo no Seridó, mas não só, que vêm se especializando em costura. Então, para uma marca do Rio Grande do Norte, ela vai conseguir costureiras com experiência e oficinas as quais possam recorrer com muito mais facilidade do que outros estados nordestinos, por exemplo, que não têm essa capacidade, esse parque industrial instalado.

Que espaço essas manualidades que você citou ocupam hoje no mercado? E por que elas são um diferencial?

A gente está vivendo um boom do que chamam lá fora de craftsmanship, que é do artesanal. As pessoas vêm dizendo muito que a inteligência artesanal é única, é a resposta que a gente tem para inteligência artificial. Tudo o que é feito pela mão do homem, que tem essa técnica, que é manual, artesanal, vem sendo muito valorizado no mundo inteiro. Então a gente vê na moda e na decoração, sobretudo, isso chegando com muita força. E a gente tem que se aproveitar desse momento. Até porque não adianta uma marca nordestina fazer um produto genérico que uma marca paulistana, carioca ou de Brasília faça. Porque o consumidor tende sempre a comprar de quem está mais perto dele, mesmo que seja uma compra online. E também é mais difícil ficar conhecido nesses estados. Não adianta uma marca de moda fazer uma peça idêntica a da NV (criada pela influenciadora Nati Vozza), porque, mesmo que ela tenha a mesma qualidade, ela só vai vender na cidade dela. A marca que quer furar essa barreira tem que trazer algo de original.  

A Nordestesse foi lançada em 2021 com a proposta de dar visibilidade à produção criativa nordestina. Quais foram os principais desafios enfrentados e quais avanços mais a surpreenderam desde então?

Olha, eu acho que foram muitas conquistas, né? E, hoje, eu fico muito feliz quando vejo marcas que sonhavam, mas nunca tinham colocado um pé fora dos seus estados, estarem conseguindo um reconhecimento nacional, internacional. Então, assim, o Ateliê Mão de Mãe começou com a gente, na Bahia, quando a Nordestesse começou. A Catarina Mina, no Ceará, e a Marina Bitu foi o primeiro post que a gente fez. Ninguém conhecia a Marina Bitu, né? São marcas que a gente apoiou no início e que hoje estão onde elas estão. Na São Paulo Fashion Week, que é a plataforma de moda mais importante do país, vestindo a Anitta…Tem Adriana Meira agora. Acabou de sair a peça dela que está com a Anitta. A ideia da Nordestesse era ‘quem não conhece, não consome’. Então, o primeiro passo para que a gente torne as marcas nordestinas mais conhecidas e desejadas, é fazer com que elas sejam conhecidas. E por isso que o nosso braço de conteúdo é tão importante. A gente tem 145 mil seguidores. A gente tem mais seguidores de fora do Nordeste do que do Nordeste, o que eu acho que é muito bom, porque você vê que existem pessoas espalhadas pelo Brasil, e sobretudo de São Paulo, que é o nosso maior número de seguidores, com interesse em consumir o Nordeste em todas as áreas da economia criativa. Viagem, música, design, marcas plásticas, moda e design. Então, eu acho que a gente mostra que a gente está no caminho certo. 

Mas quais são os maiores desafios? 

As marcas nordestinas estão longe do centro. Isso faz com que tudo seja mais caro e mais difícil. Então para participar de uma semana de moda, uma marca que é de São Paulo basta pagar as modelos, pagar a feitura da roupa, e as indústrias de tecido estão todas lá, ela não precisa pegar um avião ou recorrer a um representante. O fato de a gente estar longe torna tudo mais caro e mais difícil. Parece uma besteira, mas os representantes regionais não têm a variedade de tecidos, e você não está falando com o diretor de marketing que pode te dar alguma coisa de graça, fazer parceria. Tudo isso é muito complicado, e infelizmente a grande indústria nordestina não apoia o setor de economia criativa como deveria. A gente vem fazendo uma força para conectar essas grandes empresas com o setor da economia criativa. Na parte de políticas públicas ainda falta uma política clara que olhe para a moda com o mesmo carinho que a gente olha para o artesanato.

Como é construída a curadoria da Nordestesse? O que faz uma marca, um criador ou um produto despertar seu interesse?

Para entrar para a curadoria da Nordestesse, a gente sempre diz, são marcas que dialogam com o território, seja na escolha de materiais – como o linho, o algodão cru da Paraíba, mas, sobretudo, usando tecidos e fibras naturais porque são a cara da região – seja pelo conforto térmico, seja porque a gente tem a Bahia e o Piauí aparecendo como grandes produtores de algodão, a Paraíba e o Rio Grande do Norte dando show com algodão agroecológico, a Paraíba com algodão colorido. Então pode ser na escolha do material, na temática. São marcas que bebem nas fontes da cultura nordestina em vez de olhar para referências internacionais, por exemplo. Mas não tem que ser literal. A Bia Souza, de Natal, fez uma coleção belíssima há uns dois anos, talvez, inspirada no Maracatu, e não tinha caboclo de lança, não tinha estampa. Era o corte enviesado das roupas que lembrava o movimento, por exemplo, da roupa do caboclo de lança. Então, essa questão de olhar para o território como inspiração não significa que você vai fazer só coisa estampada, colorida, um cangaceiro, couro. Mas materiais também, muito uso do couro. É impressionante como temos excelentes marcas jovens trabalhando com couro de pirarucu, couro de piranha e couro mesmo, porque temos um rebanho caprino e ovino muito grande. É uma das nossas forças. Então a gente olha marcas que dialogam com o território, seja no uso de materiais, seja na temática e na inspiração. Isso vale para tudo, para o design, para as artes visuais, quando a gente escolhe um artista visual, artista plástico, um escultor, quando a gente está falando de design, quando a gente está falando de gastronomia. 

E como o Brasil e o mercado internacional têm enxergado hoje o que o Nordeste produz? Você percebe mudanças em como a moda da região é vista, valorizada e consumida? 

Todo mundo está falando de Brazil Core. Também tem o Nordeste Core. É um excelente momento para a moda nordestina, para a moda brasileira. Mas a gente tem que ter o cuidado de saber surfar essa oportunidade para estar lá em cima, ter conquistado o mercado, quando eventualmente essa onda passar. Eu acho que vai ser uma coisa duradoura, essa questão da valorização do artesanal, e aí a alegria do Brasil e a criatividade. Eu acho que a gente tem um potencial muito grande, mas tem que ser agora, tem que aproveitar esse momento agora para ser um dos líderes dessa nova revolução que está vindo. A gente não pode ficar só no oba oba de usarem a nossa imagem e não consumirem nossos produtos. Então a gente tem que ficar em cima da Apex da Abest, dos órgãos que são responsáveis pela exportação, para que o nosso produto chegue também, não só nossa imagem. 

Olhando para os próximos anos, quais tendências você enxerga para a moda nordestina? E quais perspectivas vê especificamente para o Rio Grande do Norte?

Olha, eu acho que a sustentabilidade, além dessa coisa do artesanal, é uma tendência crescente. Então quanto mais o Rio Grande do Norte, a moda Rio Grande do Norte, e o Sebrae, o Senai, enfim, os órgãos responsáveis pelo fomento ao artesanato, quanto mais eles derem essa força para que a manualidade esteja junto da moda e do design, mais tendência o Rio Grande do Norte vai ser. Você tem o algodão agroecológico, você tem muito trabalho com fibras naturais, como o sisal, então a preocupação com a sustentabilidade também é muito forte como tendência de consumo. 

Texto: Renata Moura

Foto: Divulgação

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