ISI-ER e iCS apresentam estudo que compara gás a alternativas de menor emissão para a indústria

O Instituto Clima e Sociedade (iCS) e o Instituto SENAI de Inovação em Energias Renováveis (ISI-ER) apresentaram, sexta-feira (07), a metodologia do estudo “Análise do papel do gás fóssil na transição para uma economia de baixo carbono no Brasil”, que avalia a participação atual e futura do gás natural na indústria brasileira e compara o uso do insumo a alternativas de menor emissão de CO₂ – principal gás do efeito estufa. O workshop para apresentação dos dados foi realizado na sede do ISI-ER, em Natal (RN).
O evento reuniu representantes do setor produtivo, da academia e do governo. O estudo foi iniciado em julho de 2025, com previsão de conclusão em setembro deste ano. O foco das análises são os setores industriais têxtil, de cerâmica, química, metais não ferrosos, mineração e pelotização, transporte rodoviário de cargas pesadas e semipesadas, ferro gusa e aço.
As atividades foram selecionadas pela relevância do consumo atual ou projetado de gás natural e de outros combustíveis fósseis, além de critérios como o volume das emissões de gases de efeito estufa e a participação do gás natural nessas emissões. Para cada um dos casos, foram avaliadas as tecnologias predominantes hoje e fontes energéticas alternativas.
O estudo contemplou análises técnica, econômica e ambientais, a partir das quais foram calculadas as chamadas “curvas MAC” – ou MACC, sigla em inglês para Marginal Abatement Cost Curve (Curva de Custo Marginal de Abatimento) – representações gráficas que permitem comparar custo e potencial de redução das emissões com as rotas avaliadas.
Planejamento
“Nós vamos apresentar perspectivas que levam em consideração a busca da redução das emissões com o consumo de gás natural e a viabilidade econômica dessa substituição. Isso tem uma importância especial para o planejamento dos investimentos das empresas em equipamentos, em tecnologia, em mudança da fonte energética utilizada, ou em ações que intervêm no processo produtivo capazes de evitar ou minimizar as emissões”, observa o diretor do SENAI-RN e do Instituto SENAI de Inovação em Energias Renováveis, Rodrigo Mello. “É um processo que a gente entende como muito importante, olhando não só para o ambiente industrial de hoje, mas para a indústria e suas melhorias do amanhã”, frisa.
Segundo os/as pesquisadores/as, o trabalho busca produzir subsídios que contribuam não só com a tomada de decisão das empresas, mas também com o planejamento energético do país e a formulação de políticas públicas. “Os objetivos são estudar os custos de abatimento da transição energética na indústria, em segmentos energo-intensivos (que consomem grandes volumes de energia), qualificar o debate, e trazer números para a discussão da transição energética”, explica Daniel Stilpen, especialista em Energia e Indústria no Instituto Clima e Sociedade, organização financiadora do projeto.
“Nós queremos entender o potencial de abatimento associado a diferentes tecnologias e o custo de cada uma dessas medidas, caso sejam adotadas. Como resultado disso, esperamos demonstrar que uma série de tecnologias já são viáveis, já tem custo negativo de abatimento e potencial atrativo, então não seriam simplesmente custos para a indústria brasileira e para a indústria do Nordeste, mas alternativas que trazem potenciais de competitividade em novos mercados”, complementou.
Metodologia
Raniere Rodrigues, pesquisador do ISI-ER e coordenador do estudo, detalha que a metodologia adotada possibilita contabilizar o custo da introdução de cada rota tecnológica investigada, a exemplo da substituição de combustíveis, da utilização de hidrogênio de baixo carbono, da eletrificação, de investimentos em eficiência energética ou da adoção de novos processos produtivos e equipamentos.
“Todas essas alternativas são comparadas com a condição atual que os setores têm no processo produtivo e, ao final, a gente consegue ter duas variáveis: Custos relacionados à implementação dessas novas tecnologias e o quanto cada uma dessas tecnologias consegue abater em toneladas totais de CO₂ evitados”, detalha.

Dados do Ministério de Minas e Energia atualizados até setembro de 2025 mostram que a indústria é a principal consumidora de gás natural atualmente no Brasil. Da demanda nacional média pelo produto, de 68,06 metros cúbicos por dia (m³/dia), 58,91% foram destinados à atividade no acumulado no período, 28,56% à geração de energia elétrica, 6% ao setor automotivo, 2,27% ao segmento residencial e 4,26% para outros usos, incluindo o comercial.
A participação do insumo na indústria varia entre os segmentos. “Em alguns casos ele é utilizado principalmente para gerar calor. Em outros, também funciona como matéria-prima ou agente redutor. Há ainda setores nos quais sua participação é pequena diante de outros combustíveis, reduzindo sua relevância como vetor de transição”, aponta o estudo do ISI-ER.
O produto é, entre os combustíveis fósseis, o que menos emite gases de efeito estufa e é atualmente visto como combustível intermediário no processo de descarbonização e transição energética.
A busca por alternativas nesse contexto, entretanto, está inserida em um cenário marcado por mudanças climáticas que tornam necessária a substituição progressiva dos combustíveis fósseis na matriz energética, pela necessidade de redução das emissões de gases de efeito estufa, por tensões geopolíticas que influenciam a oferta do insumo no mercado e pelo avanço de tecnologias financeiramente mais competitivas e de menor emissão.
O estudo do ISI-ER avaliou inicialmente 12 setores industriais, partindo dos pressupostos de que consomem gás natural e têm oportunidades de implementar novas rotas tecnológicas visando mitigar esse consumo e consequentemente as emissões de CO₂. Os sete selecionados foram os que mais se destacaram em relação à demanda, às emissões e ao potencial técnico de adoção de tecnologias de baixo carbono.

“A gente conseguiu comparar rotas tecnológicas alternativas de descarbonização, pensando na possibilidade de uma transição energética mais direta para rotas mais descarbonizantes, ou rotas intermediárias”, observa Stefan Amaral, economista que integra a equipe de pesquisadores/as do ISI-ER responsável pelas análises.
“O estudo tem toda uma complexidade envolvida de construção de dados, que no final geram essa diferenciação de custos e de capacidade de abatimento de cada rota tecnológica, e pode dar informações e evidências à indústria, ao governo e a outras instituições, de qual rota é mais interessante com esse objetivo de descarbonização”, acrescenta.
Para a realização do trabalho foram analisados dados nacionais e internacionais, artigos científicos, roadmaps e relatórios setoriais. Ao final do projeto, indústrias e demais instituições que colaboraram com o desenvolvimento do estudo receberão um relatório técnico com os resultados. O projeto de pesquisa é coordenado, no ISI-ER, pelo pesquisador Raniere Rodrigues e conta com a participação dos/as também pesquisadores/as Stefan Amaral e Amanda Renally (economia), Marina de Siqueira (biologia e gestão de políticas públicas), Alisson Alves (ciência da computação) e Bruno Costa (biologia).
Adoção de rotas alternativas depende de política mais integrada, diz vice-presidente da Federação das Indústrias do RN
Para o vice-presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte (FIERN) e presidente da Comissão Temática de Meio Ambiente da Federação (COEMA/FIERN) e do Sindicato das Indústrias de Extração de Calcário, Fabricação de Cimento, Cal e de Argamassa do Rio Grande do Norte (SINECIM-RN), Marcelo Rosado, a viabilidade da adoção de novas tecnologias é “uma conta que o empresário faz a todo momento”. Ela depende, no entanto, de uma política mais integrada e da consideração de fatores que envolvem desde licenciamento para substituir a queima do gás como combustível por alternativas como a biomassa, pela necessidade de investimentos na modernização de equipamentos e em outras adaptações, assim como por análises sobre como mostrar na ponta, ao consumidor, que o produto fruto dessa mudança é diferenciado.
“São muitos aspectos que a gente precisa colocar na conta. Nós moramos em um estado que tem abundância de recursos naturais e fontes energéticas e eu acredito que a gente tem todas as chances de se diferenciar de outros estados, mas precisamos fazer mais contas sobre isso”, observou Rosado, durante o workshop.

Daniel Stilpen, do iCS, destacou que “na visão do Instituto Clima e Sociedade, a indústria brasileira precisa entrar em um caminho de descarbonização e encontrar mecanismos que facilitem a redução das emissões”. “Isso passa primeiro por ter conhecimento das tecnologias disponíveis e dos custos associados de investimento, assim como por encontrar caminhos para financiamento que permitam à indústria adotar essas tecnologias”. Ele acrescentou que “uma das grandes contribuições do estudo é reduzir assimetria de informações e dar visibilidade a uma série de tecnologias que estão disponíveis, entendendo peculiaridades e barreiras que podem aparecer no caminho”.
Janaina Alves, professora do Departamento de Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), apontou a importância do estudo para fortalecer as decisões da indústria. “O trabalho traz um grande rigor técnico, traz resultados importantes sobre a emissão de CO₂, a importância do gás natural, e alternativas para melhorar a eficiência energética”, disse ela. Já a secretária estadual de Desenvolvimento Econômico, Emilia Casanova, ressaltou a importância de o governo acompanhar as rotas tecnológicas em discussão e ver como a indústria pode ter desenvolvimento e geração de empregos através da inovação.
O workshop também contou com a participação da professora de economia da UFRN e coordenadora do curso de Ciências Econômicas da Universidade, Julia Rocha Araujo, do professor do Departamento de Economia da mesma instituição, Igor Ezio Maciel Silva, de integrantes da equipe do ISI-ER e da Faculdade de Energias Renováveis e Tecnologias Industriais do SENAI-RN, a FAETI.
Texto e fotos: Renata Moura



