Artigo – “O Judiciário e a Crise de Autoridade: É Hora de Reformar”, por Roberto Serquiz
Presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte (FIERN)
Sou filho de um tempo em que os bancos escolares nos ensinavam Organização Social e Política do Brasil (OSPB). Aprendíamos sobre a organização do Estado, a hierarquia das instituições e a importância das normas para a convivência social. Era também um tempo em que a liturgia do cargo impunha aos juízes falar apenas nos autos. Nossos pais nos ensinavam a respeitar os magistrados como figuras exemplares, impolutas.

Lembro-me de um conselho simples do meu pai: “Filho, o juiz é uma pessoa acima de qualquer suspeita.” Mais do que uma definição jurídica, aquela frase traduzia um valor: quem recebe a missão de fazer cumprir a lei precisa cultivar, além do conhecimento técnico, a confiança da sociedade. E é justamente aí que surge a reflexão: o que mudou de lá para cá?
A sessão do Supremo Tribunal Federal realizada na terça-feira, 15 de setembro, sobre a PET 16.662, terminou sem conclusão definitiva, após pedido de vista. Para além do resultado processual, porém, ficou uma questão maior: que mensagem uma instituição transmite quando uma sessão destinada à apuração de fatos passa a concentrar grande parte das discussões em questões processuais, validade de elementos e teses jurídicas?
Não se trata de antecipar culpa ou inocência. Investigar não é condenar, e questionar provas faz parte do Estado de Direito. O devido processo legal precisa ser respeitado. Mas também é preciso reconhecer que as instituições são avaliadas não apenas pelo que decidem, mas pelo exemplo que oferecem.
Entre dizer e fazer existe uma distância. E ela se torna ainda maior quando aquilo que se exige da sociedade não parece ser aplicado com o mesmo rigor dentro das próprias instituições. O cargo não deveria, por si só, transformar uma conduta ilícita em lícita ou eliminar a responsabilidade. Da mesma forma, uma prerrogativa de função não pode se transformar em uma autoridade acima da lei. Em uma democracia, a igualdade perante a lei precisa valer para todos.
Por isso, tudo precisa ser esclarecido. A transparência deve ser absoluta, e dúvidas envolvendo integrantes das instituições também precisam ser devidamente apuradas. A lição primeira de austeridade, justiça e legalidade deve nascer dentro da própria casa da Justiça.
Sem esse exemplo interno, a confiança diminui, a descrença cresce e a segurança jurídica — pilar fundamental para o desenvolvimento nacional — fica sob constante ameaça. É nesse ponto que a discussão ultrapassa uma sessão ou um processo e alcança o próprio desenho institucional.
O Brasil precisa discutir, com serenidade e responsabilidade, mecanismos que fortaleçam a independência do Judiciário sem afastá-lo dos controles democráticos. Precisamos aperfeiçoar transparência, prestação de contas e regras para prevenir conflitos de interesse.
É preciso também discutir o atual modelo de permanência nos Tribunais Superiores, inclusive a possibilidade de mandatos temporários, além de regras mais rigorosas para a organização de eventos, obtenção de patrocínios e atuação profissional de parentes de integrantes das Cortes.
Não se trata de enfraquecer a Justiça. Trata-se de fortalecê-la. Instituições fortes são aquelas capazes de aperfeiçoar seus próprios mecanismos, reconhecer vulnerabilidades e recuperar a confiança da sociedade.
Estou, realmente, indignado. Mas, como dizia Ariano Suassuna, sou um “realista esperançoso”. Acredito que amanhã será um novo dia e que podemos estar diante do fim de um período e do início de um novo ciclo histórico. Esse novo ciclo, porém, somente terá êxito se formos capazes de corrigir erros, responsabilizar condutas comprovadamente desviantes e aperfeiçoar nossas instituições.
A democracia não se sustenta apenas pela força das leis. Sustenta-se também pelo exemplo daqueles que têm a responsabilidade de fazê-las cumprir. E talvez esse seja o grande recado que fica: é hora de reformar e aperfeiçoar o sistema judiciário brasileiro — para que a Justiça preserve sua independência, recupere a confiança da sociedade e volte a ser, para todos, sinônimo de equilíbrio, segurança e respeito à lei.



