Da oficina de Alcaçuz à passarela: coleção Revoada ganha projeção nacional no SCFW

O que começou dentro de uma oficina de costura na Penitenciária Estadual de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte, chegou à passarela do Santa Catarina Fashion Week (SCFW). O projeto Tecendo Liberdades, coordenado pela designer Jéssica Cerejeira, levou a coleção Revoada, criada por 15 homens privados de liberdade na unidade, para a passarela catarinense, contando com a articulação e o apoio do Sindicato da Indústria de Fiação e Tecelagem do Estado do Rio Grande do Norte (SIFT-RN), por intermédio da Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte (FIERN).
A coleção foi apresentada na 4ª edição do evento, realizada de 24 a 26 de setembro, no Floripa Airport, em Florianópolis (SC). O convite para levar as peças ao evento nacional surgiu após a repercussão do desfile da coleção no GINGA Moda RN, realizado pelo SENAI-RN, Sebrae RN, Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico do Rio Grande do Norte – SEDEC e pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços – MDIC

Idealizada por Jéssica Cerejeira, consultora do SENAI Moda RN e criadora do projeto Tecendo Liberdades, a coleção reúne cerca de 25 peças produzidas a partir de técnicas manuais como crochê, macramê, bordado e fuxico. Calças, casacos, vestidos, saias, bolsas, chapéus, mantos, bonés e ponchos foram confeccionados pelos participantes com orientação de Jéssica e a partir de insumos doados por empresas da indústria têxtil e de confecção.
Entre os materiais utilizados estão linhas, aparas de tecidos, botões de madeira, miçangas e paetês. Alguns elementos ganharam novos significados nas peças, como palavras bordadas ou aplicadas que remetem a liberdade, desafios, ninguém é perfeito e recomeço. Até mesmo a aba de um dos bonés foi produzida com material reaproveitado de baldes de tinta utilizados dentro da própria unidade prisional.
A participação no SCFW contou com o apoio do SIFT-RN, que viabilizou a presença do projeto no evento. Para a presidente do sindicato, Helane Cruz, iniciativas como essa mostram que a atuação da indústria pode alcançar dimensões que vão além da atividade econômica. “O SIFT-RN é uma ponte que combina desenvolvimento econômico e social. A indústria é um vetor forte que gera empregos, qualifica e integra pessoas a possibilidades”, disse a presidente do sindicato.
“O sucesso não se mede apenas pelo lucro”, continua, “mas também pelo impacto que deixa no território”, completou Helane Cruz.
Para a consultora Jéssica Cerejeira, levar a Revoada ao SCFW representou mais do que apresentar roupas em uma passarela. “Levar a coleção para o SCFW não foi só sobre colocar peças de roupa na passarela, mas sobre reforçar a importância de projetos como esse, gerando oportunidade e fazendo eles se orgulharem do que fazem”, disse.
Coleção Revoada
A coleção foi desenvolvida no primeiro semestre, a partir de materiais doados por empresas do setor, e apresentada inicialmente no GINGA Moda RN. O vídeo do desfile ganhou repercussão nas redes sociais e, segundo Jéssica, foi a partir dessa visibilidade que surgiu o convite do Circuito Nacional Fashion Week (CNFW) para que a coleção fosse apresentada em Santa Catarina.
Para os 15 internos que criaram cada peça dentro do Presídio de Alcaçuz, ver esse trabalho transpor os muros da prisão e chegar a um evento nacional teve um valor que nenhuma palavra consegue mensurar, relata a idealizadora do projeto.
No desenvolvimento da coleção, a cadeia produtiva local também esteve presente por meio da doação de insumos e aparas têxteis. Vicunha Têxtil, Santana Têxtil, Bonor Botões, Casa do Zíper e Uniformize, esta última parceira fixa do projeto, contribuíram com materiais que foram transformados pelos participantes dentro da unidade prisional.
A própria ideia da Revoada nasceu de uma pesquisa desenvolvida por Jéssica em seu doutorado e dialoga com o espetáculo de mesmo nome do Grupo Arkhétypos de Teatro, que está sendo remontado em Alcaçuz com participação dos professores da UFRN Robson Haderchpek e Sebastião Sales.
Para Jéssica, a chegada da coleção a Santa Catarina reforça o potencial da moda como ferramenta de formação e transformação. “A moda é produto e mercado, mas também é vetor de transformação social, de formação, de geração de renda, de remição de pena e de reconstrução de perspectivas para pessoas privadas de liberdade”, destaca.
“A apresentação no SCFW levou para fora do ambiente prisional um trabalho construído coletivamente dentro da oficina de Alcaçuz e deu visibilidade nacional às peças produzidas pelos participantes. Levar a Revoada para Santa Catarina foi mostrar que a moda pode ocupar outros espaços e servir a outros propósitos”, resume Jéssica.



